O que constitui uma obra de arte poderá ser uma discussão muito subjectiva na História da Arte, mas completamente irrelevante na Conservação e Restauro. Nesta disciplina, estuda-se a materialidade das peças, procura-se produto e técnicas para as tratar e posteriormente trata das peças, sejam elas evidentes obras de arte ou não.
Exemplo disso é esta comum escultura representando Nossa Senhora de Fátima. Poderá estar longe de ser considerada uma obra de arte tal como as magníficas esculturas de séculos anteriores, mas os procedimentos a ter perante todas elas durante os seus tratamentos de Conservação e Restauro são muito semelhantes.
Esta escultura poderá ser vulgar esteticamente, igual a tantas centenas de esculturas de fabrico em série, mas muito singular pela sua história individual.
Tendo sido adquirida pela população de um bairro desfavorecido e doada ao convento das dominicanas que fica na sua vizinhança, a imagem de Nossa Senhora de Fátima era frequentemente levada de casa em casa. Numa dessas estadias, uma vela no altar improvisado foi acesa para que a Nossa Senhora não ficasse sozinha na ausência da crente.
Má companhia foi. A pequena chama da vela foi aumentando à medida que ia queimando a própria imagem, o mobiliário, os cortinados e a própria barraca no centro de centenas de outras. O bem intensionado gesto da velha senhora poderia ter causado graves danos.
Não bastava pelo que tinha passado, a Nossa Senhora de Fátima foi colocada nas mãos de um habilidoso do bairro para a tentar ocultar os danos sofridos. Não só não melhorou, como piorou e bastante a já tão danificada imagem.
Perante tão massacrada imagem, tão inconsolável população e tão desgostosa congregação, foi efectuado um tratamento de modo a estabilizar os danos causados pelo fogo e pela intervenção posterior e com algumas operações de restauro de modo a repor parte da imagem inicial. Mas não totalmente, para não apagar este episódio da memória de todos, pediram as irmãs.